
Quando Luiz Gonzaga gravou “Hora do Adeus”, em 1967, imaginava-se que aquela poderia ser uma despedida dos palcos. A canção, composta pelo pernambucano Onildo Almeida, nasceu em um momento em que o Rei do Baião enfrentava a concorrência de novos movimentos musicais e via sua presença diminuir na indústria fonográfica. Mas o adeus nunca aconteceu. Décadas após a morte de Gonzaga, em 1989, a sanfona continua ecoando pelo Nordeste e movimentando uma cadeia produtiva que gera emprego, renda e preserva a identidade cultural da região.
Aos 98 anos, Onildo Almeida observa que o instrumento se tornou muito mais do que um símbolo musical. A sanfona ajudou a consolidar uma economia criativa formada por músicos, afinadores, fabricantes, luthiers, professores e comerciantes que mantêm viva uma tradição que atravessa gerações. Na Paraíba, essa realidade pode ser vista em cidades como João Pessoa e Campina Grande, onde a cultura do forró continua impulsionando negócios e criando oportunidades.
Da sala de aula às oficinas, a sanfona movimenta profissões
Em João Pessoa, Francismar de Souza, conhecido como professor Caju, transformou sua paixão pelo instrumento em profissão. Depois de morar no Paraná e reencontrar suas raízes nordestinas, passou a se dedicar à música e hoje mantém uma escola que atende cerca de 50 alunos de diferentes partes do Brasil.
A atividade vai além do ensino. A demanda por manutenção e conservação dos instrumentos alimenta uma rede de profissionais especializados que trabalham para garantir a qualidade sonora das sanfonas. Entre eles está o afinador Sarayva Azevedo, que fez do ofício sua principal fonte de renda e representa uma das etapas mais importantes da cadeia produtiva.
Segundo os profissionais do setor, a procura pelo instrumento cresce especialmente durante o período junino, mas permanece ativa ao longo de todo o ano graças ao interesse de novos músicos e ao fortalecimento das tradições culturais nordestinas.
Amazan transformou necessidade em indústria cultural
Entre os nomes que contribuíram para fortalecer esse mercado está o cantor, poeta e sanfoneiro Amazan. Diante das dificuldades para realizar reparos em seus próprios instrumentos, ele decidiu aprender o ofício e aprofundar seus conhecimentos na Itália, onde estudou técnicas de fabricação e montagem de sanfonas.
O aprendizado resultou na criação de uma fábrica em Campina Grande, que hoje contribui para profissionalizar o setor, gerar empregos e fortalecer a produção local. O empreendimento conta com apoio do Sebrae Paraíba e se tornou referência para músicos de várias regiões do país.
A iniciativa também ajudou a reduzir a dependência de assistência técnica estrangeira, oferecendo soluções adaptadas às necessidades dos artistas brasileiros e valorizando o trabalho artesanal envolvido na construção do instrumento.
Tradição que atravessa gerações
A força da sanfona também pode ser percebida entre os mais jovens. Um exemplo é Antônio Marques, de apenas 14 anos, aluno do professor Caju, que já realiza apresentações em eventos e constrói presença nas redes sociais por meio da música.
Para especialistas da economia criativa, casos como esse demonstram que a sanfona continua sendo um instrumento capaz de conectar tradição e inovação. Dados nacionais mostram que a economia criativa movimentou mais de R$ 393 bilhões no Brasil em 2023, com forte participação dos segmentos ligados à cultura popular e à música.
Na avaliação de Regina Amorim, do Sebrae Paraíba, cidades como João Pessoa e Campina Grande se destacam pela capacidade de transformar cultura em oportunidade econômica, fortalecendo o turismo, o artesanato e as manifestações artísticas ligadas à identidade nordestina.
Quase seis décadas depois da gravação de “Hora do Adeus”, a sanfona segue provando que nunca se despediu. Continua presente nos palcos, nas oficinas, nas escolas de música e na vida de milhares de nordestinos, mantendo viva uma tradição que é patrimônio cultural e também fonte de trabalho para muitas famílias.
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