
Poucas obras públicas em João Pessoa despertaram tantos debates nos últimos anos quanto o Parque da Cidade, projetado para ocupar a área do antigo Aeroclube, na zona norte da capital. Com investimentos estimados em cerca de R$ 120 milhões, o empreendimento reúne expectativas relacionadas ao turismo, qualidade de vida, mobilidade urbana e valorização imobiliária, mas também provoca questionamentos sobre preservação ambiental e planejamento urbano de longo prazo.
Apresentado pela Prefeitura como um dos projetos estruturantes para o futuro da cidade, o parque foi concebido em parceria com o escritório de paisagismo Burle Marx e surge em um momento de forte expansão imobiliária da capital paraibana.
Mais do que uma obra de infraestrutura urbana, o projeto tornou-se símbolo de uma discussão cada vez mais presente nas cidades brasileiras: como equilibrar crescimento econômico, preservação ambiental e ocupação sustentável do território.
Uma nova centralidade urbana para João Pessoa
A proposta do Parque da Cidade vai além da criação de uma área de lazer. A expectativa da gestão municipal é que o espaço funcione como um novo polo de convivência, turismo e desenvolvimento urbano.
Especialistas destacam que parques urbanos modernos exercem papel estratégico na valorização das cidades. Além de oferecer áreas de recreação e contato com a natureza, eles ajudam a atrair investimentos, fortalecem o turismo urbano e estimulam a criação de novos corredores econômicos.
Em João Pessoa, bairros como Aeroclube, Bessa, Jardim Oceania e Altiplano já registraram forte valorização imobiliária nos últimos anos, impulsionados pelo crescimento do turismo e pela busca crescente por qualidade de vida na capital paraibana.
Nesse contexto, o parque é visto por muitos investidores como um elemento capaz de acelerar ainda mais essa transformação urbana.
A questão ambiental permanece no centro do debate
Apesar dos benefícios apontados pelos defensores do projeto, as discussões ambientais continuam presentes.
Moradores, urbanistas e ambientalistas observam que um dos principais desafios será transformar a área em um parque efetivamente arborizado, capaz de oferecer sombra, conforto térmico e recuperação ambiental significativa.
A crítica mais recorrente envolve justamente a necessidade de ampliar a cobertura vegetal e garantir que a proposta vá além da construção de equipamentos urbanos.
O ambientalista Marco Suassuna, por exemplo, defendeu a integração da laguna existente nas proximidades ao projeto e sugeriu que a elaboração da intervenção tivesse contado com um concurso nacional envolvendo arquitetos, urbanistas e paisagistas de diversas regiões do país.
Para especialistas da área ambiental, a principal preocupação não está na existência do parque, mas na forma como ele será integrado aos ecossistemas locais.
Disputa judicial atrasou cronograma da obra
O projeto também ficou marcado por uma longa batalha judicial iniciada em 2024.
Entidades ambientalistas questionaram aspectos do licenciamento ambiental e defenderam a necessidade de estudos mais aprofundados, incluindo a elaboração do Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima).
As discussões chegaram ao Tribunal de Justiça da Paraíba e posteriormente ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Durante o processo, o ministro Herman Benjamin destacou a importância da recuperação da biodiversidade, especialmente em áreas sensíveis compostas por ecossistemas de restinga e cordões arenosos.
Embora o mérito ambiental não tenha sido julgado de forma definitiva no STJ, as decisões permitiram a retomada das obras após a apresentação de documentação técnica complementar.
Desenvolvimento ou valorização imobiliária?
Talvez a principal questão levantada pelo Parque da Cidade esteja relacionada ao modelo de desenvolvimento que João Pessoa deseja construir para as próximas décadas.
Os defensores do empreendimento argumentam que a cidade precisa ampliar seus espaços públicos qualificados para acompanhar o crescimento populacional e turístico. Também destacam que áreas verdes estruturadas são fundamentais para melhorar a qualidade de vida e fortalecer a imagem da capital como uma das cidades mais verdes do país.
Já os críticos alertam para o risco de que o discurso ambiental seja utilizado apenas como ferramenta de valorização imobiliária, sem que os benefícios ecológicos ocorram na mesma proporção.
A preocupação ganha relevância diante da rápida expansão imobiliária observada em diversos bairros da cidade e do aumento constante no preço dos imóveis e aluguéis.
O desafio de conciliar crescimento e preservação
Com previsão oficial de conclusão para 2028, o Parque da Cidade ainda terá um longo caminho até sua entrega definitiva à população.
Quando concluído, o espaço deverá ocupar cerca de 25 hectares, equivalente a aproximadamente 35 campos de futebol, tornando-se uma das maiores áreas públicas urbanas da capital.
Mais do que inaugurar equipamentos ou criar novos espaços de lazer, o verdadeiro desafio será demonstrar que crescimento econômico, preservação ambiental e qualidade de vida podem caminhar juntos.
O resultado desse projeto poderá influenciar não apenas a paisagem urbana de João Pessoa, mas também a forma como a cidade pretende se desenvolver nas próximas décadas, em um momento em que sustentabilidade e planejamento urbano deixaram de ser apenas conceitos e passaram a fazer parte das decisões estratégicas das cidades mais competitivas do país.
Para acompanhar essas e outras notícias de economia, desenvolvimento regional e infraestrutura urbana, acesse nossa editoria de Economia no Nordeste Online.