
A União Europeia (UE) e a Índia firmaram nesta terça-feira, 27, um acordo de livre-comércio após quase duas décadas de negociações, visando fortalecer as parcerias econômicas diante do cenário de crescentes tensões comerciais globais. A cerimônia de assinatura ocorreu em Nova Délhi, contando com a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, do presidente do Conselho Europeu, António Costa, e do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Este novo tratado estabelece uma zona econômica maior do que aquela prevista no recente acordo entre a UE e o Mercosul.
O pacto entre a UE e a Índia envolve economias que, juntas, totalizam US$ 23,4 trilhões em Produto Interno Bruto (PIB) e uma população aproximada de 1,9 bilhão de pessoas, superando os US$ 22,4 trilhões e os 719 milhões de habitantes do acordo com o Mercosul. Narendra Modi destacou que o tratado é um marco importante para facilitar o acesso dos agricultores e pequenos empresários indianos ao mercado europeu.
Especialistas consultados afirmam que, embora o acordo entre UE e Índia não inviabilize o pacto com o Mercosul, ele pode diminuir a sensação de urgência política em Bruxelas para a conclusão deste último acordo. O professor Leandro Gilio, do Insper Agro Global, aponta que essa movimentação reflete um ambiente de maior incerteza geopolítica, marcado pelo crescimento do protecionismo e disputas tarifárias, impulsionadas, em parte, pelas medidas dos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump.
O professor Carlos Frederico de Souza Coelho, da PUC-Rio, entende que o novo acordo revela a hierarquia de prioridades da União Europeia, indicando que as dificuldades com o Mercosul não se devem a questões ambientais, mas sim à competitividade da agricultura brasileira. Essa situação tende a reduzir a pressão política para a finalização do pacto com os países sul-americanos.
De acordo com os termos, a Índia deverá eliminar ou reduzir tarifas sobre 96,6% das exportações europeias, enquanto a UE se compromete a fazer o mesmo com 99,5% dos bens indianos ao longo de sete anos. A Comissão Europeia projeta uma duplicação das exportações do bloco para a Índia até 2032, reforçando sua estratégia de diversificar parceiros comerciais e diminuir a dependência econômica dos Estados Unidos e China. O acordo entre UE e Índia sinaliza, portanto, um importante movimento na geopolítica comercial global, que pode impactar diretamente o ritmo do pacto europeu com o Mercosul.