
O bolso do consumidor e a margem de lucro do produtor rural enfrentam uma nova ameaça vinda do mercado internacional de insumos. A recente disparada no preço dos fertilizantes acendeu o sinal de alerta máximo no agronegócio brasileiro e desponta como um forte vetor de pressão para elevar a inflação dos alimentos ao longo deste ano. De acordo com projeções oficiais do Banco Mundial, a expectativa é de que o preço médio dos fertilizantes registre um salto de 31% no acumulado do ano, movimento severamente impulsionado pelo reajuste de 60% no valor da ureia, o principal composto nitrogenado utilizado nas lavouras do país.
O cenário gera profunda apreensão em cooperativas, indústrias de alimentos e analistas de mercado devido à crônica vulnerabilidade estrutural do Brasil no setor. Atualmente, nada menos que 85% de todos os fertilizantes consumidos no território nacional são importados do exterior. Essa dependência massiva deixa o custo de produção agrícola totalmente exposto às crises geopolíticas lá fora e, principalmente, às oscilações e flutuações cambiais do dólar no mercado financeiro.
Efeito cascata: da lavoura de grãos ao preço da carne e do leite
Segundo uma análise técnica detalhada da consultoria Lev Intelligence, o impacto desse reajuste internacional atinge a cadeia produtiva em um efeito cascata muito bem desenhado. O encarecimento dos insumos importados eleva de forma imediata os custos de plantio de culturas de base como a soja, o milho e o trigo. Economistas apontam que esse repasse é percebido em menos de um mês nos índices de atacado, pesando diretamente no Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
O segundo efeito dessa pressão chega de forma inevitável às gôndolas dos supermercados e feiras livres, afetando o custo de vida da população. Inicialmente, o reajuste encarece grãos, frutas, verduras e legumes. Em seguida, a inflação se estende para as proteínas animais, como a carne bovina, o frango, o leite e os ovos. Isso ocorre porque a ração utilizada na pecuária e na avicultura depende fundamentalmente do milho e da soja, grãos que passam a carregar o custo inflado da ureia, exercendo uma força extra sobre o IPCA, o indicador oficial da inflação do país.
Incerteza relembra crise passada e acende alerta no bolso do paraibano
O fantasma dos fertilizantes caros traz à memória do setor produtivo as turbulências enfrentadas entre os anos de 2021 e 2022, período em que a ureia acumulou uma alta superior a 100%, gerando desabastecimento global e forte arrocho nas margens de lucro dos produtores rurais. O temor do mercado é que o avanço dos custos comprometa novamente a rentabilidade do produtor e penalize o consumidor final, que já enfrenta um orçamento doméstico apertado.
Aqui na Paraíba, o agronegócio acompanha a escalada dos preços com redobrada atenção. As lavouras paraibanas dependem fortemente da entrada desses insumos de fora, e a alta atinge em cheio cadeias que sustentam a economia do nosso interior e do litoral, como a cana-de-açúcar, a bananicultura e o cultivo do abacaxi. Para tentar mitigar os prejuízos e manter a competitividade regional, produtores do estado vêm buscando refúgio em projetos de produção sustentável, biofertilizantes e no fortalecimento de alternativas orgânicas locais para reduzir a dependência da ureia, que é altamente atrelada às variações internacionais do gás natural.
Quem vive da lida da terra sabe que para colher o fruto bonito no tempo certo, o chão precisa de sustento e o produtor precisa de juízo na ponta do lápis. Ver os adubos e a ureia subirem de preço lá fora, ao sabor do vento do dólar e das brigas dos gringos, é o aviso de que o prumo da nossa comida vai ficar mais caro na mesa do trabalhador. O agricultor paraibano, que sua a camisa para ver brotar a cana, a banana e o abacaxi, agora precisa fazer milagre para o custo não engolir o seu ganho. É o retrato de um país rico por natureza, mas que ainda depende do estrangeiro para alimentar o próprio solo. Que o quengo e a criatividade do homem do campo saibam achar saídas na nossa própria terra, pois o povo não pode pagar o pato da fome por conta do preço do insumo importado.
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