
Pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) têm revolucionado o acesso à água potável para famílias do semiárido nordestino ao instalar mais de 200 dessalinizadores solares em comunidades rurais de Paraíba, Pernambuco e Ceará. Essa tecnologia utiliza somente energia solar para converter água salobra proveniente de poços em água própria para consumo humano, proporcionando uma solução sustentável e de baixo custo para a região.
Em Queimadas, a cerca de 157 quilômetros de João Pessoa, a família de Severino, residente no sítio Alto dos Cardeiros, vive uma transformação significativa. Antes submetidos a madrugadas e longas esperas por água trazida por caminhões-pipa ou carroças, frequentemente sem garantia de abastecimento, atualmente contam com um poço de 40 metros, uma cisterna para captação de água da chuva e cinco dessalinizadores solares. Essa estrutura gera água diariamente para o consumo da família e auxilia os vizinhos da comunidade.
O funcionamento dos dessalinizadores solares baseia-se no ciclo natural da água. A água salobra é colocada em um reservatório de cimento coberto com vidro, onde o calor solar evapora a água, deixando o sal depositado na base. O vapor se condensa no vidro e é coletado por calhas em um reservatório separado, resultando em água com níveis de salinidade adequados para beber. As versões mais recentes do sistema quase dobraram a produção diária, com cada unidade gerando entre 13 e 18 litros de água por dia, conforme a incidência solar. No sítio de Severino, o conjunto de cinco dessalinizadores produz cerca de 65 litros diários, suficiente para atender pelo menos três famílias.
Considerando a quase total remoção dos sais minerais na água dessalinizada, os pesquisadores aconselham a reconstituição parcial desses minerais, por meio da mistura com pequena quantidade da água original do poço ou armazenamento em recipientes de barro, garantindo melhor qualidade da água.
Desde o início do projeto em 2010, sob coordenação do professor Francisco Loureiro, a tecnologia foi desenvolvida como social e sem patentes, visando a construção local pelos agricultores e pedreiros, sem a dependência de equipamentos importados. A implantação contou com a participação ativa da comunidade, estudantes e pesquisadores, realizados através de mutirões e financiamento coletivo.
Os pesquisadores destacam que a água de muitos poços do semiárido nordestino apresenta alta salinidade devido à estrutura cristalina do solo, tornando-a inadequada para consumo. Ao transformar essa água salobra em potável, o uso dos dessalinizadores solares promove a permanência das famílias no campo, reduz a dependência de medidas emergenciais e fortalece a resiliência diante de estiagens prolongadas.
O projeto avança agora com o desenvolvimento de uma versão móvel do dessalinizador solar, adaptada para regiões de solos instáveis como o massapê. A inovação visa manter a eficiência do sistema com estruturas mais leves e flexíveis para resistir aos deslocamentos do solo sem perda de desempenho.