
A expansão imobiliária e o avanço da infraestrutura na Grande João Pessoa têm aberto um importante debate sobre o equilíbrio entre desenvolvimento urbano e conservação ambiental na Paraíba. Com a construção da Ponte do Futuro, áreas como Ribeira e Forte Velho, em Santa Rita, passaram a ser vistas como potenciais polos de crescimento econômico e turístico, atraindo interesse do mercado imobiliário e de investidores.
Entretanto, especialistas têm ressaltado que o verdadeiro desafio não é apenas promover o desenvolvimento, mas fazê-lo sem repetir erros históricos que prejudicaram rios, manguezais e zonas costeiras Brasil afora. O foco central dessa discussão está no estuário do Rio Paraíba, considerado um dos ecossistemas mais sensíveis e estratégicos do estado.
Essa questão vai além da estética, englobando a segurança hídrica, o equilíbrio climático, a proteção da biodiversidade, a prevenção da erosão, o saneamento básico, o planejamento urbano e a sustentabilidade econômica a longo prazo. Atualmente, fundos internacionais e grandes grupos empresariais já priorizam critérios ambientais antes de investir em empreendimentos imobiliários, turísticos e urbanos, pois projetos sem garantia ambiental enfrentam riscos jurídicos, financeiros e reputacionais significativos.
Joácio Júnior, professor da UFPB e doutor em Engenharia Ambiental, destaca que o crescimento econômico da região precisa ser pautado por um planejamento técnico rigoroso. Ele observa que a Ponte do Futuro não representa apenas uma ligação viária, mas deve ser construída com muita cautela, especialmente considerando a sensibilidade do estuário do Rio Paraíba. As localidades de Ribeira e Forte Velho, que até pouco tempo eram predominantemente rurais, necessitam de um ordenamento territorial cuidadoso antes da expansão urbana.
Segundo ele, é fundamental existir um zoneamento ambiental e urbanístico para essas áreas, sugerindo a criação de um plano diretor específico desenvolvido por especialistas em diálogo com a população, a fim de controlar ocupações e verticalizações desordenadas. Entre os riscos apontados estão os impactos diretos sobre manguezais, fauna, sistemas de drenagem natural e saneamento básico. A destruição dos manguezais, por exemplo, elimina habitats importantes e aumenta erosões nas margens.
Além disso, a falta de infraestrutura sanitária adequada em áreas em expansão implica o descarte inadequado de resíduos, afetando o lençol freático e a própria água do rio. Joácio reforça que os estudos ambientais precisam ser integrados e preditivos, destacando a importância do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) para os projetos vinculados à Ponte do Futuro. Ele chama atenção para a necessidade da Avaliação Ambiental Estratégica, que avalia os efeitos cumulativos de vários projetos simultâneos para evitar destruição do ecossistema.
Por sua vez, Talden Farias, advogado e especialista em Direito Ambiental, enfatiza que o debate ambiental na região ganhou também dimensões jurídicas e econômicas. Ele ressalta que áreas estuarinas como o Rio Paraíba requerem licenciamento ambiental rigoroso e detalhado, com o EIA e o RIMA sendo instrumentos essenciais para prevenir impactos em hidrodinâmica, salinidade, sedimentação e biodiversidade.
Farias alerta que empreendimentos sem o devido licenciamento podem sofrer embargos, multas, ações civis públicas e até responsabilização criminal, além de prejuízos à reputação das empresas envolvidas. Segundo ele, o direito ambiental brasileiro já reconhece a conciliação entre desenvolvimento sustentável e preservação ambiental, como reafirma decisão do Supremo Tribunal Federal. A Ponte do Futuro, portanto, pode coexistir com a proteção ambiental desde que acompanhada de planejamento rigoroso, licenciamento e fiscalização constante.
Os especialistas concordam que preservar áreas estratégicas, como manguezais e vegetação primária, é indispensável para garantir a sustentabilidade da expansão urbana na região. O momento na Paraíba é decisivo: o crescimento e interesse econômico estão presentes, mas é crucial que a expansão ocorra de forma organizada e sustentável para evitar os problemas enfrentados em outros locais, como degradação ambiental e fragilidade urbana.
No centro desta discussão, cresce a convicção de que proteger o meio ambiente não significa frear o desenvolvimento, mas assegurar que ele seja viável e duradouro nas próximas décadas.