
Para quem caminha pelas areias douradas da Baía do Sancho ou contempla o desenho imponente do Morro Dois Irmãos, Fernando de Noronha se apresenta como um dos maiores monumentos naturais do planeta. No entanto, os segredos mais profundos e misteriosos desse arquipélago pernambucano repousam onde os olhos da maioria dos turistas não conseguem alcançar. Agora, graças ao talento e à ousadia dos fotógrafos Fabi Fregonesi e Raphael Gatti, o Brasil pode testemunhar o território submerso da ilha de uma forma totalmente inédita. Através do projeto independente “Panorâmicas de Noronha”, a dupla conseguiu registrar a vastidão e a real escala do fundo do mar por meio de fotografias panorâmicas subaquáticas de alta imersão.
A técnica utilizada — raríssima em registros de mergulho devido à complexidade da luz e do movimento da água — consiste na união sequencial de várias imagens, variando de três a mais de trinta fotografias para compor um único cenário. O resultado é um espetáculo visual que mapeia 16 pontos de mergulho da ilha, reproduzindo com exatidão a visão panorâmica do mergulhador. Para que o espectador compreenda a grandiosidade das formações rochosas e dos recifes submersos, os fotógrafos incluíram a silhueta de um mergulhador em todas as cenas, servindo como uma necessária referência de tamanho e perspectiva.
A corrida de 15 minutos a 62 metros de profundidade
Dentre todas as expedições realizadas pelo projeto, nenhuma exigiu tanto sangue-frio e precisão técnica quanto o registro da lendária Corveta V17 Ipiranga. Naufragada em 1983 após colidir com o Cabeço da Sapata — uma formação rochosa submersa que não constava nas cartas náuticas da época —, a embarcação repousa intacta a impressionantes 62 metros de profundidade, sendo um dos pontos mais cobiçados por mergulhadores experientes em todo o mundo.
Fotografar um gigante de ferro nessas condições nunca havia sido feito em formato panorâmico completo. Devido à grande profundidade, a dupla de fotógrafos dispunha de uma janela de tempo absurdamente curta: apenas 15 minutos para capturar todas as sequências de fotos antes de iniciar o longo processo de descompressão para retornar à superfície. O sucesso da missão dependeu de um planejamento cirúrgico e de uma sintonia fina entre Fabi, reconhecida internacionalmente e premiada na categoria de naufrágios (Wrecks), e Raphael, especialista em pesquisas de novas tecnologias aplicadas à imagem subaquática.
O Modo Nordestino de Navegar: O respeito ao mistério das águas
Quem nasce na beira do mar do Nordeste aprende, desde menino, a ler o humor das marés e a respeitar o silêncio das águas profundas. O jangadeiro, o pescador de lagosta e o marinheiro sabem que o oceano é um mestre antigo, cheio de portais e histórias guardadas no fundo do peito. Registrar as entranhas de Noronha em formato de xilogravura visual, entalhando a luz azul do oceano na fotografia, é o modo nordestino de navegar e respeitar o mistério das águas. É lembrar que o mar que sustenta nossa costa e alimenta nosso turismo também é um guardião de memórias — como a velha corveta naufragada —, e que descer até o fundo para trazer de volta essa beleza é um ato de puro respeito e amor à nossa própria história geográfica.
Arte, ciência e o apoio à preservação ambiental
Além da mística Corveta Ipiranga, o projeto eternizou pontos icônicos do arquipélago, como as impressionantes formações de Pedras Secas, o próprio Cabeço da Sapata e os paredões de Trinta Réis. Mais do que um portfólio artístico de tirar o fôlego, o “Panorâmicas de Noronha” cumpre um papel fundamental de conscientização ecológica. Ao revelar a real dimensão e a fragilidade desses ecossistemas submersos, as imagens funcionam como um manifesto visual em defesa da preservação da vida marinha e do turismo sustentável.
A jornada independente contou com o suporte logístico da operadora de mergulho Águas Claras, peça-chave para garantir a segurança e a precisão das descidas em mar aberto. Ao final, o que Fabi e Raphael trazem para a superfície é um registro histórico que eleva o patamar da fotografia subaquática brasileira e consolida as águas de Fernando de Noronha não apenas como um patrimônio do Nordeste, mas como um tesouro vivo que a humanidade precisa aprender a resguardar para o amanhã.
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