
A inflação dos alimentos voltou a ser uma grande preocupação para economistas, posicionando-se como uma das principais ameaças ao controle dos preços no Brasil nos próximos anos. Após um período de condições mais favoráveis esperado para 2025, especialistas indicam que alimentos e bebidas podem registrar aumentos superiores ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) até 2027, dificultando ainda mais o trabalho do Banco Central para manter a inflação dentro da meta de 3%.
Além dos efeitos provocados pela guerra entre Estados Unidos e Irã, que impacta diretamente os preços dos combustíveis e fertilizantes, analistas destacam que eventos climáticos extremos também podem exercer forte pressão sobre os preços no país.
Custo dos fertilizantes gera apreensão no agronegócio
O bloqueio parcial na produção e distribuição internacional de fertilizantes elevou significativamente os custos do setor agrícola, gerando preocupação entre os produtores rurais. Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, afirma que empresas do agronegócio têm antecipado negociações para garantir preços mais elevados dos insumos diante desse cenário.
Parte do aumento dos custos será absorvida pelos produtores, mas outra fatia deverá ser repassada aos consumidores finais, elevando os preços de diversos alimentos e bebidas.
Produtos como carnes, aves, ovos, leite e derivados, panificados, óleos e gorduras são especialmente sensíveis à alta dos preços do petróleo e dos fertilizantes. Enquanto alguns itens refletem esse impacto rapidamente, outros podem apresentar reajustes ao longo de vários meses.
El Niño pode agravar ainda mais a inflação dos alimentos
Economistas monitoram com atenção a possibilidade de um El Niño forte em 2026, que poderá coincidir com um período de seca no Sudeste e prejudicar culturas importantes como milho, frutas, verduras e legumes. A Warren Investimentos aponta que um cenário de clima extremo poderia somar até dois pontos percentuais à inflação acumulada no biênio.
Atualmente, a alimentação pesa 21,3% no IPCA e chega a 24,3% no índice que mede o custo de vida das famílias de menor renda. Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren, destaca que alimentos in natura reagem rapidamente ao aumento nos custos dos fertilizantes, enquanto outras commodities agrícolas podem sofrer impactos mais acentuados entre 2026 e 2027.
Previsões indicam alta de até 10% na inflação dos alimentos
O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, alerta que os riscos inflacionários relacionados aos alimentos são maiores para 2027, embora os efeitos possam iniciar ainda este ano. A consultoria projeta uma inflação de alimentos e bebidas próxima a 5% entre 2026 e 2027, que pode se agravar caso o conflito internacional persista e o clima se deteriore.
Em um cenário combinado de El Niño forte, câmbio depreciado e problemas na segunda safra de milho, a inflação mensal dos alimentos poderia adicionar entre 0,39 e 0,49 ponto percentual ao índice geral de preços, podendo atingir 10% em 12 meses.
Impacto do fenômeno climático nos preços dos alimentos
Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, destaca que anos em que o El Niño se manifesta costumam apresentar inflação bastante elevada nos alimentos. Segundo sua instituição, a média de inflação dos alimentos nesses períodos foi de 11,6%, enquanto em anos sem El Niño ficou em 6,1%.
Os alimentos de ciclo curto, como verduras, frutas e legumes, são os mais afetados. A G5 Partners projeta que os preços dos alimentos consumidos em casa devem subir cerca de 5% em 2026 e acelerar para cerca de 7% em 2027.