
O equilíbrio ecológico de um dos santuários ecológicos mais importantes do planeta voltou a exigir ações enérgicas de manejo ambiental. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) abriu oficialmente a programação da Segunda Semana do Peixe-leão em Fernando de Noronha. O evento de mobilização científica e comunitária tem como alvo principal a espécie invasora e altamente venenosa Pterois volitans, predadora exótica que vem provocando severos riscos de desequilíbrio na biodiversidade marinha local. O encontro técnico reúne pesquisadores, operadoras de mergulho, pescadores nativos e moradores da ilha para a realização de oficinas, cursos de manejo e monitoramento populacional.
Uma das principais bandeiras da força-tarefa deste ano gira em torno da proposta de inserção da espécie na culinária local como ferramenta de controle biológico. O incentivo ao consumo do peixe-leão já é uma realidade consolidada em ilhas do Caribe e países da América Central, onde a carne do animal é bastante valorizada na gastronomia por apresentar um filé branco de sabor suave e delicado. Segundo a chefe do ICMBio em Noronha, Lilian Hangae, a experiência internacional prova que engajar a cadeia de restaurantes e o turismo gastronômico é o caminho mais rápido para frear a multiplicação do invasor e resolver os gargalos internos de armazenamento das capturas.
Espinhos venenosos exigem treinamento rigoroso para manipulação
Apesar do potencial gastronômico do filé, a introdução do peixe-leão nos cardápios esbarra na complexidade de sua anatomia. O animal possui uma armadura natural composta por 18 espinhos dorsais carregados de toxinas venenosas. Em caso de acidentes ou manipulação inadequada, o veneno injetado na pele humana é capaz de provocar dores agudas e intensas, febres altas, náuseas severas e, em quadros mais graves, crises de convulsão. Por conta desse risco de saúde pública, o ICMBio incluiu na programação ciclos de treinamentos práticos de desossa e limpeza segura direcionados especificamente para chefs de cozinha, pescadores e feirantes do arquipélago.
A presença do peixe-leão nas águas de Fernando de Noronha foi detectada pela primeira vez em dezembro de 2020. Desde então, uma aliança contínua entre as equipes de fiscalização ambiental e as empresas de turismo subaquático já conseguiu remover mais de três mil exemplares dos recifes da ilha. O monitoramento vem registrando dados impressionantes sobre a adaptação do animal no Atlântico Sul: em dezembro, uma varredura profunda capturou 140 indivíduos em poucos dias e, no início do ano passado, mergulhadores locais pescaram um exemplar gigante de 49 centímetros, considerado um dos maiores tamanhos de peixe-leão já catalogados no mundo.
Predador voraz engole até 20 peixes nativos em meia hora
Originário dos oceanos Índico e Pacífico, o peixe-leão encontrou no litoral brasileiro um ambiente perfeito para sua expansão devido à ausência de predadores naturais de grande porte e à sua capacidade reprodutiva em massa. A espécie se comporta como uma máquina de caça voraz nos corais, sendo perfeitamente capaz de devorar até 20 pequenos peixes nativos e crustáceos em um intervalo de apenas 30 minutos. Esse apetite insaciável dizima os cardumes de espécies jovens e ameaça de extinção peixes endêmicos que só existem nas águas paraibanas e pernambucanas, quebrando o prumo da sustentabilidade marinha.
Durante a semana de atividades, o ICMBio apresentará os relatórios consolidados e o mapeamento dos pontos críticos de infestação monitorados nos últimos anos. As palestras técnico-científicas e as capacitações práticas buscam criar uma rede de sentinelas ambientais entre os profissionais do turismo náutico. A meta do órgão ambiental é consolidar uma cultura de monitoramento participativo, onde cada morador e visitante se transforme em um agente ativo na localização e erradicação do invasor, blindando a fauna subaquática de Fernando de Noronha.
Quem olha a beleza colorida e o nado vistoso do peixe-leão nas águas transparentes de Noronha quase não acredita no estrago que esse bicho estrangeiro faz escondido nos nossos corais. Vir de fora para engolir os peixinhos da nossa terra, sem respeitar o prumo e o sossego da nossa natureza, é uma afronta que o ecossistema do Nordeste não pode aguentar calado. Ver o ICMBio reunir os mergulhadores e o povo da ilha para ensinar a pescar, limpar o veneno e botar esse invasor direto na panela é a prova de que a inteligência humana sabe dar o nó correto na corda da preservação. Que o filé desse peixe vire sustento e negócio na mesa dos restaurantes, pois no mar de Noronha quem dita as regras e merece proteção é a riqueza das nossas próprias espécies nativas.
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