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Petróleo verde: Como a macaúba e o agave do Sertão vão ancorar investimentos de US$ 3 bilhões na Bahia
22 de maio de 2026 / 15:33
Foto: Divulgação

A Bahia dá um passo decisivo para se posicionar como a grande fronteira da descarbonização e da transição energética no Hemisfério Sul. O Sistema Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) lançou oficialmente o Programa Indústria Verde, uma robusta plataforma institucional desenhada para estruturar cadeias produtivas sustentáveis, atrair investimentos globais e fornecer suporte técnico para megaprojetos focados em bioeconomia, combustíveis renováveis e insumos de baixíssimo carbono. O programa já nasce com a adesão de gigantes do mercado — Acelen, Braskem e Casa dos Ventos —, cujas iniciativas somadas prometem transformar a matriz econômica regional a partir de matérias-primas agrícolas e tecnologias disruptivas.

Para dar sustentação a essa nova arquitetura fabril, a FIEB montou uma engenharia de atuação integrada acionando todas as forças corporativas do seu sistema. Cada braço institucional atuará em uma frente estratégica bem delimitada:

  • FIEB (Corporativo): Comandar as diretorias de assessoria ambiental, captação de recursos financeiros e articulação institucional junto aos governos;
  • SENAI e IEL: O SENAI liderará os programas de formação técnica e qualificação profissional em massa, enquanto o Instituto Euvaldo Lodi (IEL) ficará responsável pelo desenvolvimento, qualificação e certificação de conformidade dos fornecedores locais;
  • SENAI Cimatec: Capitanear o ecossistema de pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico e patentes de inovação;
  • SESI: Estruturar os planos integrados de medicina do trabalho, saúde e segurança ocupacional para os milhares de novos operários.

Combustível de aviação (SAF): Macaúba mobiliza US$ 3 bilhões no Recôncavo

A ponta de lança e o projeto mais maduro do programa é liderado pela Acelen, que projeta converter a Bahia em uma potência global na exportação de biodiesel e Combustível Sustentável de Aviação (SAF, na sigla em inglês). Com um investimento massivo estimado em US$ 3 bilhões — que já conta com linhas de financiamento internacional aprovadas —, a planta industrial será instalada nas adjacências da Refinaria de Mataripe, local de forte tradição petroquímica no município de São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano.

O grande trunfo tecnológico do projeto é a utilização da macaúba, uma palmeira nativa com altíssimo rendimento de óleo por hectare. A viabilização da fábrica exigirá a estruturação de uma gigantesca cadeia agrícola verticalizada, envolvendo milhares de hectares de cultivo distribuídos entre o território baiano e o norte de Minas Gerais. O principal desafio técnico da empresa é o domesticamento da espécie em escala agroindustrial, contemplando desde o mapeamento de solos degradados para recuperação e colheita mecanizada até a obtenção de exigentes certificações ambientais globais (como as regras do bloco europeu). Nos primeiros meses, a usina utilizará óleo de soja como carga temporária, mas a expectativa do planejamento estratégico é que a macaúba assuma o posto de principal matéria-prima em até quatro anos.

O milagre do Agave no Semiárido e o plástico verde da Braskem

Outra iniciativa com forte potencial de transformação social mira a porção mais seca do estado. A Casa dos Ventos desenvolve um projeto pioneiro para produzir etanol de primeira e segunda geração, além de SAF, utilizando o agave — planta altamente resistente ao estresse hídrico crônico e que historicamente serve de base para a produção de tequila no México. Originada de pesquisas do SENAI Cimatec em consórcio com a Shell, a tecnologia pretende ocupar áreas de baixa aptidão agrícola no Semiárido baiano. Especialistas projetam que o agave tem características para replicar o histórico ciclo econômico e social que o sisal desempenhou na Bahia no século passado, injetando industrialização e gerando renda em municípios tradicionalmente vulneráveis.

No segmento petroquímico tradicional, a Braskem concentra seus esforços de engenharia na expansão da química verde. O plano estratégico da companhia visa substituir de forma gradual os insumos tradicionais de origem fóssil por etanol agrícola para a síntese e produção de resinas termoplásticas, gerando uma cadeia completa de plástico verde 100% sustentável. A meta é blindar a competitividade da indústria petroquímica nacional frente aos concorrentes internacionais do Golfo Americano e da Ásia, que se beneficiam de custos mais baixos de extração de gás natural. Embora o cronograma da Braskem avance em um ritmo mais cadenciado em decorrência de suas reestruturações e transições societárias, a planta baiana mantém-se catalogada como um ativo vital por sua acionista, a Petrobras.

Autossuficiência e a virada exportadora do estado

O Programa Indústria Verde surfa em uma onda paralela de investimentos que já reposiciona o agronegócio baiano. Empresas de grande porte como a Inpasa e a Impacto estão acelerando e ampliando suas unidades de processamento de grãos no município de Luís Eduardo Magalhães, no extremo oeste da Bahia, focando na produção de etanol a partir do milho e do sorgo.

Atualmente, a Bahia vive um paradoxo econômico: consome muito mais etanol do que suas usinas são capazes de fabricar, operando em uma condição deficitária que obriga o estado a importar combustível de outras federações para suprir os postos locais.

O aporte desses novos projetos de processamento promete reverter esse fluxo de caixa de forma definitiva. Ao expandir a oferta interna de biocombustíveis, a Bahia não apenas atingirá a autossuficiência energética de sua frota de veículos, mas converter-se-á em uma plataforma exportadora de alto valor agregado, fornecendo matéria-prima base para os megaprojetos de SAF e química verde que se desenham no Recôncavo e no Leste do estado.

Para Ricardo Kawabe, gerente do Observatório da Indústria da FIEB, essa transição para a indústria verde representa a maior janela de oportunidade econômica para o Brasil nas próximas décadas, pois permite usar o vigor e a produtividade do agronegócio nacional para verticalizar a produção, exportando tecnologia, sustentabilidade e inovação em vez de apenas commodities brutas.

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