
Um grupo de três jovens baianos demonstrou como a tecnologia pode ser usada de forma sensível e transformadora ao unir inteligência artificial e compromisso social em uma iniciativa voltada para um dos públicos mais vulneráveis do país: as mães solo. Péricles Oliveira, Luã Mota e Adriele Ornellas desenvolveram a “Yá”, uma ferramenta inovadora que busca auxiliar essas mulheres na organização e no controle de suas finanças pessoais, promovendo mais autonomia, segurança e qualidade de vida.
A ideia ganhou destaque internacional ao ser apresentada na AI4Good 2026 Brazil Conference, realizada em instituições de prestígio como Harvard e MIT, nos Estados Unidos. O projeto não apenas representou o Nordeste brasileiro, como também conquistou um lugar entre as três melhores propostas dentre 188 iniciativas participantes de todo o país. Esse reconhecimento reforça não apenas a relevância da solução, mas também o potencial criativo e inovador de jovens oriundos de contextos periféricos.
Naturais de Salvador, os três idealizadores cresceram em comunidades e carregam vivências que contribuíram diretamente para a construção da proposta. Antes de desenvolver a ferramenta, o grupo realizou uma análise aprofundada do contexto social, tanto local quanto nacional. Dados do Censo 2022 do IBGE mostram que mulheres lideram mais da metade dos lares na Bahia, e que, no Brasil, mulheres negras estão à frente de seis em cada dez desses lares. Em Salvador, esse cenário é ainda mais marcante, sendo a capital com maior proporção de famílias chefiadas por mães solo.
Com base nesse diagnóstico, o trio decidiu ouvir diretamente quem vivencia essa realidade. Foram realizadas entrevistas com cerca de 14 mães solo, o que permitiu identificar desafios recorrentes, como a dificuldade em controlar gastos, a ausência de planejamento financeiro e a baixa capacidade de poupança. Outro ponto importante observado foi o impacto emocional da relação com o dinheiro: muitas mulheres relataram ansiedade ao lidar com números, o que acaba dificultando ainda mais a organização financeira.
A partir dessas escutas, surgiu a “Yá”, cujo nome tem origem na língua Yorubá e significa “mãe”, carregando um forte simbolismo de cuidado, acolhimento e respeito. A ferramenta foi pensada para ser simples, acessível e próxima da realidade do público-alvo. Por isso, funciona diretamente pelo WhatsApp, um dos aplicativos mais populares entre essas mulheres. A proposta é que a usuária registre seus gastos diários de maneira prática, seja por mensagens de texto ou até mesmo por áudios, tornando o processo mais natural e menos intimidador.
Utilizando inteligência artificial, a “Yá” organiza essas informações e apresenta um panorama financeiro de forma clara, leve e sem julgamentos. Diferentemente de aplicativos tradicionais de finanças, que muitas vezes são complexos ou técnicos demais, a ferramenta prioriza uma comunicação humanizada, ajudando a reduzir a ansiedade e incentivando uma relação mais saudável com o dinheiro. Assim, as usuárias conseguem compreender melhor seus hábitos de consumo, identificar padrões e tomar decisões mais conscientes.
Embora a plataforma ainda esteja em fase de desenvolvimento, o grupo já abriu uma lista de espera para iniciar testes com usuárias no segundo semestre. A expectativa é que, com o aprimoramento contínuo e o feedback das participantes, a “Yá” possa se tornar uma solução escalável, capaz de impactar milhares de mulheres em todo o Brasil.
Mais do que uma ferramenta tecnológica, o projeto representa um processo de empoderamento coletivo. Para os criadores, a experiência também foi uma jornada de autoconhecimento, mostrando que suas trajetórias e origens são fontes legítimas de inovação. A “Yá” evidencia como a inteligência artificial, quando aplicada com propósito social, pode contribuir significativamente para reduzir desigualdades e promover inclusão financeira.
Essa iniciativa reforça a importância de desenvolver soluções que partam da escuta ativa e da compreensão das realidades locais. Ao colocar as mães solo no centro do processo, o projeto não apenas resolve um problema prático, mas também fortalece a autonomia dessas mulheres, oferecendo ferramentas para que elas assumam o controle de suas vidas financeiras com mais confiança e dignidade.