
Muito antes de se tornar matéria-prima para cosméticos, alimentos e artesanato, o licuri já era símbolo de resistência no Sertão nordestino. Conhecido como ouricuri em Pernambuco, o fruto da Caatinga ajudou povos indígenas a atravessar períodos de seca e escassez no Vale do Catimbau. Séculos depois, continua desempenhando um papel fundamental na vida das comunidades locais, agora como fonte de renda, identidade cultural e desenvolvimento sustentável.
Em Buíque, no Agreste pernambucano, o licuri tornou-se o centro de uma cadeia produtiva que reúne tradição, empreendedorismo e preservação ambiental.
Mulheres lideram transformação econômica
A principal referência desse movimento é a Cooperativa de Produção do Vale do Catimbau (COOP Catimbau), criada em janeiro de 2024.
A iniciativa reúne cerca de 30 mulheres de diferentes comunidades da região que transformam o fruto em sabonetes, óleos, biojoias, artesanato, licores, mel e diversos produtos alimentícios.
Em junho de 2025, a cooperativa inaugurou sua própria loja, ampliando a comercialização dos produtos e fortalecendo a economia local.
Segundo a presidente Simone Florêncio de Moura, o licuri representa muito mais do que uma atividade econômica.
“Ele carrega a memória dos povos indígenas que aprenderam a utilizar cada parte da palmeira de forma sustentável, respeitando a natureza e garantindo alimento em períodos difíceis”, destaca.
Ciência confirma saberes tradicionais
O que durante gerações foi transmitido pela tradição popular agora também recebe respaldo científico.
Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) estudam o licuri desde 2019, buscando comprovar propriedades já conhecidas pelas comunidades locais.
Os estudos identificaram potencial anti-inflamatório e cicatrizante no óleo extraído do fruto, tradicionalmente utilizado para tratar feridas e problemas de pele.
As pesquisas resultaram em uma patente compartilhada entre instituições de Pernambuco e da Bahia, estado onde o licuri também possui forte importância econômica e cultural.
Biodiversidade que gera desenvolvimento
Além do valor econômico, o licuri é peça importante para a conservação da Caatinga.
O extrativismo realizado no Parque Nacional do Catimbau segue práticas sustentáveis que garantem a preservação dos licurizeiros e da fauna que depende deles para alimentação e reprodução.
O Sebrae Pernambuco e a Prefeitura de Buíque apoiam iniciativas voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva, oferecendo capacitações, assistência técnica e melhorias na infraestrutura de beneficiamento.
Um modelo que une tradição e futuro
O exemplo do licuri mostra como o Nordeste tem encontrado caminhos para transformar conhecimento tradicional em oportunidades de desenvolvimento.
Ao unir ciência, conservação ambiental, empreendedorismo feminino e valorização cultural, o fruto tornou-se símbolo de um modelo econômico que respeita a natureza e fortalece as comunidades locais.
Mais do que um produto da Caatinga, o licuri representa a capacidade do povo nordestino de transformar herança cultural em futuro.
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