
Antes mesmo do amanhecer desta quinta-feira (4), a Avenida Senhor dos Passos, em Feira de Santana (BA), já estava tomada por dezenas de voluntários dedicados a uma das mais belas manifestações da religiosidade popular brasileira. Entre sacos de serragem colorida, baldes de tinta, moldes e materiais recicláveis, os participantes trabalhavam na confecção dos tradicionais tapetes de Corpus Christi, uma tradição que atravessa gerações e faz parte da identidade cultural da cidade há mais de seis décadas.
A cada ano, os desenhos transformam ruas e avenidas em verdadeiras galerias de arte a céu aberto. Símbolos religiosos, passagens bíblicas e mensagens de fé ganham forma pelas mãos de crianças, jovens, adultos e idosos que dedicam horas de trabalho para preparar o caminho por onde passará a procissão do Santíssimo Sacramento. Em Feira de Santana, a tradição não apenas resiste ao tempo, mas também encontra novas formas de se renovar.
Tradição centenária incorpora práticas sustentáveis
Originária de Portugal e trazida ao Brasil durante o período colonial, a tradição dos tapetes de Corpus Christi remete à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, quando o povo cobriu as ruas com mantos e ramos para sua passagem. Com o passar dos anos, a prática foi ganhando características próprias em diferentes regiões do país, tornando-se uma das manifestações religiosas mais marcantes do calendário católico.
Em Feira de Santana, a preocupação ambiental passou a fazer parte da celebração. Materiais que antes poderiam ser descartados ganharam nova utilidade na produção dos tapetes. Serragem, borra de café, retalhos de tecido, papel reciclado e outros elementos reaproveitados ajudam a compor os desenhos, reduzindo desperdícios e fortalecendo a consciência ambiental entre os participantes.
Segundo Mário Leal, que participa da confecção dos tapetes há mais de 40 anos, o trabalho começa semanas antes da celebração. É preciso recolher materiais, separar cores, preparar a serragem e organizar equipes para garantir que tudo esteja pronto na data da procissão.
Inteligência artificial ajuda na criação dos desenhos
A tradição também passou a dialogar com as novas tecnologias. Nesta edição, alguns dos moldes utilizados para a elaboração dos tapetes foram desenvolvidos com auxílio de ferramentas de inteligência artificial. A tecnologia tem sido utilizada para criar referências visuais, organizar elementos gráficos e facilitar a produção dos desenhos que serão reproduzidos pelos voluntários ao longo das ruas.
A novidade mostra como manifestações culturais podem incorporar recursos contemporâneos sem perder sua essência. O resultado é uma combinação singular entre fé, criatividade e inovação, capaz de aproximar diferentes gerações de uma tradição centenária.
Trabalho envolve centenas de voluntários
A organização da atividade mobiliza dezenas de grupos religiosos e centenas de participantes. Um dos principais é o grupo Caminhada Catedral de Sant’Ana, que reúne cerca de 455 integrantes. Segundo a coordenadora Celiane Ferreira, o planejamento dos tapetes começa ainda nos primeiros meses do ano e se intensifica nas semanas que antecedem Corpus Christi.
O processo envolve tingimento da serragem, secagem dos materiais, elaboração dos moldes e preparação dos espaços onde serão confeccionados os desenhos. Até cartões de crédito inutilizados são reaproveitados para ajudar no acabamento e nos contornos das imagens.
A participação dos jovens é considerada fundamental para garantir a continuidade da tradição. Ao mesmo tempo em que aprendem técnicas e significados religiosos, eles assumem o papel de futuros guardiões desse patrimônio cultural.
Fé que atravessa gerações
Entre os muitos participantes deste ano está a psicóloga Samila Costa, que viveu pela primeira vez a experiência ao lado da filha Mel, de apenas seis anos. Para ela, mais do que uma atividade religiosa, a confecção dos tapetes representa um momento de conexão familiar e de transmissão de valores para as novas gerações.
É justamente essa capacidade de unir passado, presente e futuro que mantém viva a tradição em Feira de Santana. Os tapetes de Corpus Christi continuam sendo um símbolo de fé coletiva, mas também de criatividade, pertencimento e renovação.
Mais do que decorar ruas por algumas horas, eles contam histórias, preservam memórias e demonstram como uma manifestação cultural pode evoluir sem perder suas raízes. Em Feira de Santana, a combinação entre religiosidade, sustentabilidade e tecnologia mostra que tradição e inovação podem caminhar lado a lado.
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