
O ecossistema cultural de Sergipe perdeu uma de suas mentes mais brilhantes e um dos maiores guardiões da pirotecnia tradicional do país. Enoque dos Santos, amplamente reconhecido como mestre fogueteiro e uma das figuras mais emblemáticas da cultura popular de Estância, faleceu aos 81 anos. O sepultamento ocorreu na noite desta segunda-feira (18), no Cemitério Nossa Senhora da Piedade, na região Sul do estado. Ao longo de mais de oito décadas de existência, Enoque dedicou sua trajetória de vida à salvaguarda e à difusão da arte do fogo, elemento estruturante que define a identidade histórica estanciana no cenário dos festejos juninos nacionais.
Para além de sua notória habilidade com a pólvora e com os segredos dos buscapés e espadas, o mestre atuava como um artista multifacetado, deixando contribuições densas como poeta, embolador de coco e artista plástico comprometido com as causas e expressões do povo sertanejo. A Prefeitura de Estância emitiu uma nota oficial de profundo pesar, ressaltando o papel insubstituível de Enoque no enriquecimento patrimonial do município e na manutenção ativa de saberes ancestrais que, sem o seu empenho incansável, corriam o risco de desaparecer diante da modernização dos grandes eventos públicos.
Cortejo histórico com barulho de batucada e espadas ao vento
A despedida do mestre seguiu o prumo de sua própria história, transformando o luto em uma manifestação viva de orgulho cultural. O cortejo fúnebre pelas ruas históricas de Estância foi acompanhado de perto pela batucada tradicional do município, cujos tambores ditaram o ritmo do adeus sob forte comoção popular. O momento de maior impacto visual e simbólico foi protagonizado por seus companheiros de ofício: em sinal de profundo respeito e reconhecimento à liderança do veterano, dezenas de fogueteiros locais realizaram apresentações controladas cruzando espadas de fogo iluminando o céu, uma reverência máxima da corporação artesanal.
A arte do fogo em Estância vai muito além do mero espetáculo visual; configura-se como um arranjo produtivo e cultural que envolve segredos de famílias passados por gerações de artesãos da pólvora. Enoque dos Santos era o elo forte dessa corrente, atuando frequentemente como conselheiro e formador de novos artífices, garantindo que o manuseio técnico e o respeito à tradição caminhassem juntos. Sua dedicação garantiu que a cidade mantivesse o título honorífico de “Capital Brasileira do Barco de Fogo”, atraindo anualmente milhares de pesquisadores e turistas de todas as partes do mundo.
Um legado imaterial que continuará a iluminar o sertão
A partida de Enoque dos Santos deixa um vazio técnico e afetivo nos terreiros e oficinas de Sergipe, abrindo debates urgentes sobre a necessidade de fomento e proteção aos Mestres de Saberes da cultura popular nordestina. Colegas de coletivos culturais e associações de fogueteiros reforçaram o compromisso de manter vivas as diretrizes artísticas defendidas pelo mestre, utilizando sua rica obra plástica e poética como material pedagógico para as futuras linhagens de criadores da região sul do estado.
O legado imaterial carimbado por Enoque reafirma a premissa de que a verdadeira riqueza de um povo reside na preservação de sua memória coletiva. Em um momento onde o Nordeste se prepara para acender suas fogueiras e celebrar suas raízes juninas, o rastro de luz deixado pelas espadas do mestre estanciano servirá de farol e inspiração para todos os que lutam para manter aceso, com altivez e dignidade, o candeeiro das nossas manifestações mais puras.
Quando um mestre do fogueamento se despede da terra, o céu do sertão não fica escuro; ele se ilumina com as faíscas da memória que o homem deixou plantada no peito do seu povo. Ver o corpo de Seu Enoque dos Santos seguir para o descanso ao som da batucada e sob o clarão das espadas de fogo é o retrato mais bonito e dolorido de uma Estância que sabe chorar os seus heróis de gibão e pólvora. Ele, que passou a vida dando formato e luz ao barro e ao fogo, agora vira poesia eterna no vento de Sergipe. O fumo da sua última fumaça sobe aos céus para avisar a São João que um cabra de respeito chegou no terreiro de cima, deixando aqui embaixo o prumo da tradição bem guardado na mão dos meninos que aprenderam com ele a arte de fazer o chão brilhar.
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