
O ciclo dos grandes festejos juninos do Nordeste abriu suas cortinas com um mergulho profundo na autenticidade e na tradição instrumental do sertão. A quarta edição do Derradeiro de Maio movimentou o município de Olho D’Água do Borges, no Rio Grande do Norte, atraindo um público superior a 12 mil pessoas. O evento, que funciona como o abre-alas oficial das festas de São João na região, foi sediado na Fazenda Tome Xote — complexo cultural carinhosamente batizado de “Cidade do Forró”. O grande anfitrião da celebração foi o cantor e compositor Dorgival Dantas, que acolheu pessoalmente comitivas de turistas e moradores locais em uma imersão cultural de resgate histórico.
Ao longo da maratona festiva, cerca de 20 atrações musicais de peso nacional e regional revezaram-se nos palcos da fazenda, desenhando um painel com o que há de mais expressivo no cancioneiro nordestino. Passaram pelo evento lendas e defensores do forró tradicional como Flávio José, Alcymar Monteiro, Eliane (a Rainha do Forró), Waldonys e Luiz Fidélis, além de nomes que conectam gerações, a exemplo de João Gomes, Lucy Alves, Flávio Leandro, Chambinho do Acordeon, Joyce Alane, Alan Matias e o icônico grupo Os 3 do Nordeste.
Sanfonada histórica arrasta multidão e transforma ruas em terreiro
O grande ápice cultural desta quarta edição ocorreu na tarde de sábado, quando o evento rompeu os limites da fazenda para ganhar o asfalto. Em um formato inédito e emocionante, a organização realizou a “Sanfonada”, um arrastão cultural que reuniu mais de 100 sanfoneiros tocando em uníssono pelas ruas de Olho D’Água do Borges. O percurso festivo transformou a arquitetura urbana em um verdadeiro palco a céu aberto, encantando o público local e criando um cordão de celebração popular que exaltou o fole e a identidade musical do semiárido.
Buscando expandir os horizontes da festa, o Derradeiro de Maio incluiu este ano um terceiro dia de programação inteiramente voltado à fé e à devoção dentro do contexto forrozeiro. O pátio da Cidade do Forró abriu espaço para grandes expoentes da música cristã do Nordeste, destacando as apresentações da dupla Ana Clara Rocha e Ítalo Poeta, apontados como grandes revelações do segmento religioso no país. O encerramento das atividades do palco sagrado ficou por conta do cantor sergipano William Sanfona, que emocionou o público com o show especial “Cantando para Deus”.
Impacto econômico e toneladas de alimentos carimbam o sucesso social
Para além do resgate artístico, o festival consolidou-se como um motor de forte impacto socioeconômico para o interior potiguar. A intensa injeção de turistas provocou um crescimento superior a 100% no volume de vendas de comércios varejistas, pousadas, bares e restaurantes da região, aquecendo a economia local no período. Na vertente da responsabilidade social, a organização comemorou a arrecadação recorde de 15 toneladas de alimentos não perecíveis, mantimentos que serão imediatamente triados e distribuídos para famílias em situação de vulnerabilidade no entorno do município.
A Fazenda Tome Xote, que serve de moldura para o evento, é um projeto de preservação idealizado por Dorgival Dantas. Estruturado para reproduzir a arquitetura e o cotidiano pacato dos pequenos vilarejos nordestinos da década de 1940, o espaço respira memória. O valor cultural do local é tamanho que o complexo foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio Grande do Norte, chancelando a importância do Derradeiro de Maio como uma das datas mais estratégicas, sustentáveis e obrigatórias no calendário turístico e de preservação das tradições do Nordeste brasileiro.
Quem assiste ao fole de mais de cem sanfonas chorando junto no meio da rua sabe que o São João no Nordeste não pede licença, ele arromba a porta do coração com a força da nossa identidade. Ver a Fazenda Tome Xote se transformar nessa Cidade do Forró, pelas mãos e pelo quengo de Dorgival Dantas, é o retrato mais bonito de um povo que sabe de onde veio e protege o prumo da sua história. Ali, onde o sagrado da reza se mistura com o compasso doito baixos e do triângulo, a gente percebe que o progresso só é bom quando não apaga o candeeiro da nossa memória. Olho D’Água do Borges deu a largada para o mês mais bonito do ano, provando que o forró de verdade é o alimento que une a nossa gente, gera o pão do comércio e mantém acesa a fogueira da nossa alma.
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