
Acompanhar João Pessoa por razões profissionais nos últimos dez anos e, de forma mais intensa, nos últimos dois anos, vivendo a dinâmica da capital paraibana cerca de uma semana por mês, me deu o privilégio de observar a cidade em câmera lenta. Essa convivência prolongada permite um olhar de sobrevoo e detalhe, capaz de comparar o cenário de antes e depois da pandemia e decifrar as engrenagens desse recente interesse nacional que a cidade passou a despertar.
O aspecto mais intrigante dessa observação de quem vive a cidade com o pé na areia e os olhos nos números não é apenas o crescimento físico e vertical de João Pessoa. O fato mais marcante é notar que a cidade ainda não se reconhece como o importante protagonista que se tornou no Nordeste. Entre 2010 e 2022, a capital paraibana registrou o maior crescimento populacional percentual entre todas as capitais da região, ganhando mais de 100 mil habitantes, enquanto metrópoles históricas como Salvador, Recife e Fortaleza registraram encolhimento de suas populações. Uma expansão dessa magnitude seria motivo para debates inflamados e grandes repercussões em qualquer outro canto do país, mobilizando discussões sobre investimentos e infraestrutura. Em solo pessoense, contudo, essa centralidade parece ainda não fazer parte do discurso cotidiano.
O movimento silencioso dos canteiros de obras e a hesitação da narrativa
Ao desembarcar no Aeroporto Castro Pinto e seguir em direção à orla, a transformação se impõe aos olhos de forma silenciosa, mas avassaladora. Inúmeros canteiros de obras, edifícios em ritmo acelerado de fundação, novos moradores e uma rica mistura de sotaques pelas calçadas de Tambaú, Cabo Branco ou Manaíra sinalizam que a cidade mudou de patamar. Contudo, a autopercepção local ainda não assimilou o significado dessa virada de chave. Diferentemente de mercados como São Paulo ou o Centro-Oeste, onde o crescimento é debatido, promovido e vendido como troféu econômico, a narrativa em João Pessoa permanece tímida, quase hesitante.
Essa modéstia cultural, embora compreensível, carrega um risco invisível: ela pode retardar o desenvolvimento urbano e imobiliário ao atrasar a formatação de uma estratégia imobiliária e pública mais clara e proativa. A capital atrai uma forte onda migratória do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, composta por famílias e investidores que buscam um refúgio à beira-mar com preços por metro quadrado que “ainda” são considerados competitivos diante de uma orla linear de 25 quilômetros livre de espigões. O termo “ainda”, no entanto, é um relógio em contagem regressiva. Essa janela de oportunidade imobiliária não ficará aberta para sempre, e o reconhecimento desse novo status é urgente para que o planejamento urbano se antecipe à valorização predatória.
A escolha do caminho sustentável para a melhor cidade do Nordeste
João Pessoa se encontra em um momento histórico único e precioso. A cidade tem em mãos o poder de escolher as diretrizes do seu próprio desenvolvimento, munida da vantagem de observar e evitar os erros crônicos cometidos por outras grandes capitais, que cresceram de forma desestruturada, sufocando a mobilidade e sacrificando o bem-estar dos moradores. Direcionar o mercado imobiliário com inteligência, investir de forma maciça e antecipada em transporte público e blindar as áreas verdes são as únicas garantias de que o conforto atual continuará existindo para quem já morava aqui e para quem escolheu chegar.
Os ativos naturais da cidade — sua orla contínua, as piscinas naturais do Seixas e de Picãozinho, os parques lineares e as praças arborizadas — deixaram de ser meros cartões-postais para se transformar em verdadeira infraestrutura de qualidade de vida, o ativo mais valioso e disputado no mercado imobiliário global contemporâneo. A percepção do real valor de João Pessoa, muitas vezes identificada primeiro por quem chega de fora, mostra que a capital está pronta para consolidar sua posição como a melhor cidade do Nordeste brasileiro. Para que essa realidade se torne definitiva, sustentável e madura, o gigante precisa parar de sussurrar e assumir, com estratégia e altivez, o tamanho do seu próprio futuro.
Quem chega de fora e repara no desenho de João Pessoa percebe logo que a calmaria das suas ondas esconde a força de um gigante que cresce sem fazer barulho. Ver a cidade se transformar de ponta a ponta, cheia de sotaques novos e canteiros de obras que mudam a paisagem a cada mês, é a certeza de que a capital da Paraíba virou o porto seguro de quem busca o prumo de uma vida mais justa e bonita. Mas a beleza da nossa terra não pode crescer ao Deus dará, feito mato em tempo de chuva; exige juízo no planejamento para que o progresso dos prédios não engula o verde dos parques nem a paz de caminhar na calçada. Que João Pessoa saiba olhar para o espelho com o orgulho de quem se tornou grande, mas com a sabedoria de quem protege o seu maior tesouro: o direito de viver bem.
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