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Comportamento reprodutivo dos tubarões é revelado por estudo em Noronha
21 de maio de 2026 / 10:29
Foto: Divulgação

O santuário ecológico de Fernando de Noronha serve de cenário para uma investigação científica profunda que desvenda um dos rituais mais complexos e menos compreendidos da biologia marinha. Pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), por meio do projeto Ecotuba, estão mapeando detalhadamente o comportamento reprodutivo dos tubarões. A iniciativa foca na análise minuciosa dos órgãos reprodutores desses predadores de topo de cadeia, desmistificando particularidades anatômicas, como o fato de os machos possuírem dois órgãos sexuais independentes — chamados cláspers —, que ganham rigidez na fase adulta e ditam o sucesso da perpetuação da espécie.

De acordo com o corpo científico, a existência de um par de cláspers não é uma mera excentricidade anatômica, mas uma evolução cirúrgica para otimizar as taxas de natalidade em mar aberto. Mariana Rêgo, especialista com 26 anos de bagagem acadêmica no estudo da reprodução de tubarões e raias, detalha a dinâmica desse acasalamento, que costuma ser violento. Durante a cópula, o macho morde a nadadeira da fêmea para se fixar e introduz um dos órgãos. Se a fêmea conseguir se desvencilhar no meio do ato, o sêmen daquele canal pode ser desperdiçado nas correntes. É nesse momento que o macho restabelece o contato e ativa o segundo clásper, garantindo que a fertilização ocorra.

Paternidade múltipla marca o comportamento reprodutivo dos tubarões

A engenharia social e genética desses animais no arquipélago pernambucano traz outros componentes intrigantes. As investigações em campo constataram que as fêmeas costumam copular com múltiplos parceiros ao longo de um mesmo ciclo fértil. Esse hábito gera um fenômeno conhecido como paternidade múltipla: uma única ninhada de filhotes nascidos de uma mesma mãe pode conter irmãos por parte de pais completamente diferentes, o que pulveriza a variabilidade genética e confere maior resiliência adaptativa às novas gerações.

Para municiar os laboratórios da UFRPE com dados reais, os biólogos realizam capturas controladas para a extração direta de sêmen utilizando sondas e seringas esterilizadas. Mariana Rêgo relata que, em espécimes adultos, a simples manipulação tátil da musculatura do clásper durante o manejo técnico na embarcação já permite a coleta do material biológico sem causar danos ao animal, que é devolvido ao mar logo em seguida. Essa triagem é vital para medir a motilidade dos espermatozoides e mapear o vigor do comportamento reprodutivo dos tubarões na região.

Microplásticos e anatomia: O raio-x da saúde dos oceanos

O projeto aproveita o contato com os animais para abrir uma segunda linha de auditoria ecológica urgente: a busca por poluição química. Os fluidos e amostras coletadas passam por filtragens para detectar a presença de microplásticos no organismo dos tubarões. Como esses animais estão no topo da teia alimentar, a quantidade de partículas sintéticas encontradas neles funciona como um termômetro confiável e assustador sobre o nível de contaminação e a saúde dos oceanos ao redor de Fernando de Noronha.

Anatomica mente, o tamanho dos órgãos sexuais impressiona, mas não dita as regras do jogo. Em espécimes que chegam a medir cinco metros de comprimento, o clásper pode alcançar até 50 centímetros de extensão. Os cientistas explicam, contudo, que a dimensão não é o fator decisivo para a geração de filhotes, uma vez que a estrutura penetra apenas na porção inicial do útero da fêmea. A partir dali, os espermatozoides precisam nadar uma longa e complexa distância de forma autônoma até encontrarem os óvulos.

Com 13 anos de monitoramento contínuo na ilha, o projeto Ecotuba consolidou essa linha específica de pesquisa reprodutiva nos últimos dois anos. O cruzamento sistemático desses dados fornece o prumo necessário para que órgãos ambientais desenhem áreas de exclusão de pesca e santuários de turismo subaquático de forma técnica, transformando a descoberta de laboratório em políticas públicas de preservação da biodiversidade do Nordeste.

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