
A guerra no Oriente Médio, centrada nas tensões entre Irã e Estados Unidos e no bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, desencadeou uma nova crise energética global em 2026. O preço do barril, que estava em torno de US$ 70 antes do conflito, saltou para aproximadamente US$ 100, aumentando as pressões inflacionárias tanto mundialmente quanto no Brasil. Na Paraíba, embora o impacto ainda não seja plenamente sentido, especialistas alertam que os efeitos já começaram e devem piorar nas próximas semanas se o conflito continuar.
A importância do petróleo na economia global é evidente, pois ele sustenta cadeias produtivas que envolvem combustíveis, plásticos, fertilizantes e transporte. No cenário brasileiro, embora haja benefícios por ser um exportador com aumento de receitas e royalties, internamente o país enfrenta alta nos combustíveis e consequências em toda a economia. O impacto na Paraíba reflete esse panorama.
O empresário paraibano Omar Hamad, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo da Paraíba (Sindipetro-PB), afirma que é impossível escapar desse efeito, já que o petróleo é uma commodity global. Assim, qualquer variação internacional afeta diretamente o mercado local. Ele ressalta que, mesmo o Brasil sendo autossuficiente na extração do petróleo, ainda depende da importação de derivados, principalmente combustíveis refinados, tornando o país vulnerável às flutuações externas.
“O problema é global, e a Paraíba, como o Brasil, não ficará de fora. Quando o preço do petróleo sobe em qualquer lugar do mundo, o aumento chega aqui também, pois não existe proteção local contra isso”, explica Hamad. Ele destaca que cerca de 30% do combustível consumido no país depende do mercado internacional, agravando a exposição do Brasil, que depende majoritariamente do transporte rodoviário para escoar alimentos e insumos básicos.
O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz diminuiu a oferta global de petróleo, enquanto cortes de produção em países do Golfo agravaram o desequilíbrio entre oferta e demanda, elevando os preços e afetando diversos setores industriais. No Brasil, os efeitos extrapolam os combustíveis, atingindo também derivados como parafina, plásticos e fibras sintéticas. Na Paraíba, os primeiros reflexos já são sentidos no aumento dos preços da cesta básica.
Segundo o economista Amadeu Fonseca, o impacto inicial é a inflação de custos, causada por um choque externo que eleva diretamente os preços dos combustíveis e indiretamente toda a cadeia econômica. Dados recentes confirmam esse movimento: o IPCA de março teve alta de 0,88%, com forte influência de transportes e alimentos, que representam cerca de 60% do índice. Em João Pessoa, o aumento do custo da cesta básica compromete quase metade do salário mínimo, pressionando o orçamento das famílias e aumentando a necessidade de crédito para consumo básico.
Apesar da alta internacional, o impacto nos preços dos combustíveis no varejo paraibano ainda não é total, devido à dinâmica de contratos e estoques. Os postos trabalham com contratos prefixados de 60 a 90 dias e não têm capacidade para estocar grandes volumes, especialmente na Paraíba por sua logística ágil. Segundo Hamad, os preços ainda não chegaram completamente ao consumidor final, mas o atraso pode gerar uma falsa sensação de estabilidade, já que o impacto já ocorreu no mercado e pode levar 60 a 90 dias para se estabilizar completamente.
Embora a gasolina seja o combustível mais visível para o consumidor, o diesel é apontado como principal vetor de impacto econômico, sustentando toda a logística do país. Hamad enfatiza que o aumento do preço do diesel onera toda a cadeia, incluindo alimentos, insumos e transporte rodoviário, sendo um grande desafio para a economia brasileira. Amadeu Fonseca complementa que o aumento dos custos pressiona o setor logístico, gerando atrasos e mudanças na dinâmica da economia nacional.
O aumento de custos afeta diretamente as margens de lucro das empresas, reduzindo investimentos e comprometendo o crescimento econômico, especialmente em um cenário de juros elevados. Hamad complementa que os postos enfrentam dificuldades para acompanhar o aumento dos preços porque precisam de maior capital de giro para comprar os produtos, e a margem de lucro não cresce na mesma proporção.
O governo federal tem implementado medidas para conter os efeitos da crise, como subsídios e reduzidos impostos, num pacote estimado em R$ 20 bilhões. Ainda assim, especialistas consideram essas ações limitadas diante do choque externo e defendem uma estratégia estrutural que valorize alternativas, como o etanol. Hamad destaca que o Brasil possui uma matriz energética pouco explorada e o etanol, por ser um produto local e gerador de empregos, poderia ajudar a reduzir a dependência do mercado internacional.
Mesmo com alguma estabilização recente nos preços internacionais, o cenário permanece incerto e possíveis novos episódios no conflito podem elevar os preços novamente. O economista Amadeu Fonseca ressalta que o mercado reage rapidamente e que embora o maior aumento já tenha ocorrido, surpresas podem provocar novas altas. Para os consumidores, a recomendação é preparar-se para continuar enfrentando esse choque externo, reorganizando gastos e planejando de forma cuidadosa para mitigar os efeitos no custo de vida.
Em resumo, a guerra no Oriente Médio, apesar de ocorrer a milhares de quilômetros da Paraíba, já reflete no cotidiano da população local, seja pelos aumentos no preço dos combustíveis, alimentos ou em geral no custo de vida, com especialistas alertando que os impactos mais severos ainda podem estar por vir.